
Quando o pequeno Davi enfrentou o gigante Golias talvez não imaginasse que milênios depois esta sua atitude fosse se tornar uma neurose. Nada contra Davi, pelo contrário. Estava na dele. Tinha mais era que enfrentar o gigante, afinal, “tamanho não é documento”. Eu tenho uma teoria e acho que não sem razão, que o protestantismo brasileiro (ou seria o evangelicalismo brasileiro?) possui uma profunda crise existencial: só consegue viver e crescer se tiver um inimigo, que claro, é sempre grande, enorme. Não, não, gigantesco!
Pois bem, esta teoria tem lá sua razão de ser.
Voltemo-nos um pouco para o passado: Quando os missionários aqui chegaram (Simonton, Chamberlain, o casal Kalley, dentre outros) encontraram uma nação profundamente católica. Existem relatos históricos de perseguições sofridas pelos primeiros protestantes nestas terras tupiniquins. Pessoas eram perseguidas, templos apedrejados; bíblias queimadas em praça pública (normalmente em frente ao templo da Igreja Católica Apostólica Romana). De fato, nossos pais na fé sofreram e muito. Os padres no sertão nordestino soltavam histórias absurdas sobre os “crentes”: Que eles, à semelhança do diabo, possuíam os pés fendidos, tais quais as patas dos bodes. Assim, muitos eram parados nas ruas e os incautos lhes pediam que tirassem os sapatos para comprovar o “fato”. Nestes locias, os crentes eram alcunhados de "Pés de bode". Diante disso e de tantas outras coisas, surgiu no Brasil a ideia de que a Igreja Católica era um inimigo e assim, “agigantou-se” - eis o primeiro gigante a ser enfrentado e combatido. E assim foi, por muitas décadas. O fato é que a Igreja Católica Romana foi mudando, deixando de perseguir os “crentes” e o gigante foi ananizando-se. Eis o problema:
- "E agora, não temos mais inimigos a combater. Precisamos de um!!"
Década de 50. O mundo estarrecido com o avanço da “Cortina de Ferro” a URSS-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O mocinho adverte o mundo:
- “Cuidado, eles comem criancinhas!”
- "Eis o novo gigante!!! Obrigado, Senhor, temos de novo, um inimigo, louvado sejas, Senhor!"
Lembro-me de ser muito influenciado por umas revistinhas famigeradas do Wim Malgo: Notícias de Israel e Chamada da Meia-Noite. Nelas o “exegeta” provava com todas as letras (e versículos), que a URSS, na figura de seus líderes (Brezhnev, Gorbatchev) era o anticristo, a besta. Mas em 9 de novembro de 1989 o muro caiu... o comunismo acabou... e novamente, os crentes ficaram sem inimigos...
- "Snifff! Não importa, criemos um inimigo a ser combatido!"
A partir de então, tudo era um inimigo em potencial. E de repente, eis que surge a oportunidade:
O movimento da Nova Era foi eleito o inimigo a ser combatido. A Nova Era é um perigo. Tudo é Nova Era. Comida é Nova Era, bebida é Nova Era, camiseta é Nova Era, cremes são da Nova Era, tudo era da Nova Era. Mas não era... a verdade é que o movimento Nova Era nunca causou problemas aos crentes. Os crentes é que precisavam de que a Nova Era fosse forte, perigosa, para então quixotescamente, combatê-la. Mas o movimento da Nova Era também acabou e os evangélicos brasileiros mais uma vez ficaram sem inimigo a ser combatido.
- "Mas agora é diferente! Tudo se encaixa! Nosso vazio existencial evangélico começa a ser preenchido. Estamos à beira de profecias se cumprirem. Temos um grande inimigo:"
EXTRA! EXTRA! BARACK OBAMA É A BESTA DO APOCALIPSE!!!
Já existem sites apregoando o cumprimento da profecia. Já existem pastores pregando sobre o fato. Já fiquei sabendo que até em salões de beleza, cabeleireiras estão comentando... Hehehe.
Não resisto: vou citar um referido Blog:
"O quadro do governo Mundial 'besta + G7 + ONU + CMI' se fecha perfeitamente em Obama, um representante a altura e com o mesmo caráter e intento que a cúpula anticristã Mundial!!”
E blá, blá, blá...
Diante disso tudo, eu acho mesmo que a besta está presente entre nós. O Problema é que não é uma só, são milhares. Que o Senhor se apiede de nós...