segunda-feira, 30 de março de 2009

Imitar ou Não? Eis a Questão!


Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo.
1 Coríntios 11.1

INTRODUÇÃO
Estamos comemorando os 500 anos do nascimento de Calvino, ocorrido em 10 de julho de 1509 e o começamos por um problema: Nós, protestantes calvinistas, temos muitas dificuldades com o enaltecimento de pessoas, pois queremos glorificar apenas a Deus. Diante disso, como falar de uma pessoa, como pregar sobre uma pessoa sem cair na idolatria barata? Como falar de um ser humano sem incorrermos naquilo que popularmente chamamos de “rasgação de seda”? Ou pior ainda: Podemos fazer isso? Podemos pregar sobre um homem? Os anglicanos não teem problemas com isso. Estão muito bem com seus ícones. Mas nós calvinistas, não.
Portanto, o que fazer?

A resposta é a própria bíblia quem nos dá.
No muito conhecido texto que acabamos de ler, temos, se não avaliarmos corretamente, uma das expressões mais arrogantes de toda a bíblia, quando o apóstolo Paulo nos diz: “sede meus imitadores”.
Contudo, a ordem ganha nova luz com a seguinte condição: “como eu o sou de Cristo”. Paulo era um imitador de Jesus Cristo, tinha tanta convicção disso que afirmara em Gálatas 2.20: “não mais eu, mas Cristo vive em mim”.
O que Paulo quer nos dizer? Simples, que devemos imitá-lo na mesma proporção em que ele mesmo imita a Jesus Cristo.

Portanto, eis o limite. Eis a regra. Eis o exemplo. Eis a resposta. Sim, podemos falar de homens. Podemos pregar sobre homens, podemos imitar homens, desde que eles sejam imitadores de Cristo.
Por esta norma, a História da Igreja é repleta de gigantes que devem ser imitados: O próprio apóstolo Paulo, o Rev. Martim Luther King, Dietrich Bonhoffer, e por que não, Rev. Caetano Nogueira Jr, um incansável missionário de nossa igreja, que ficava distante de casa 6 meses no campo missionário ou mesmo o Rev. Jonas Dias Martins, desbravador da Região Norte do Paraná? E por que não, também, sermos imitadores de João Calvino?
Devemos imitar aquilo que os homens imitarem de Cristo. Aquilo que os homens fizerem que não imita a Jesus, deve ser descartado por nós é o que Paulo nos orienta em 1Ts 5.21: “mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom”.

Feitas estas ressalvas, voltemos pois, à figura de nosso reformador.
Há na pessoa de João Calvino uma característica que, para sermos considerados calvinistas, precisamos também cultivá-la em nossa vida. Neste sentido, precisamos imitar Calvino. E o que há de bom na vida de João Calvino que deva ser imitado por nós? Ou melhor, se somos calvinistas, o que devemos manifestar para assim o sermos? Qual deve ser nossa característica para sermos calvinistas?

A FIDELIDADE
A fidelidade hoje em dia é uma virtude esquecida e quiçá, ridicularizada. Nós brasileiros já nos acostumamos à infidelidade; parece, ela é parte integrante do “modus vivendi” brasileiro: Não achamos mais estranho a infidelidade conjugal, não achamos mais estranha a infidelidade partidária e como diriam nossos antepassados: O mundo entrou na igreja, pois já nos acostumamos também à infidelidade eclesiástica. Hoje dia, as pessoas trocam de igreja como se trocam as indumentárias: "Qual igreja se adapta ao meu perfil? Qual igreja combina melhor comigo?"
Contudo, como cristãos, Deus espera e requer de nós a fidelidade. Neste aspecto, a vida de João Calvino é para nós, motivo de imitação.
O nosso reformador pode ser acusado de intolerante e rígido demais. Contudo, jamais poderá se dizer dele que foi infiel.

Calvino foi fiel à doutrina.

Em meio à efervescência do movimento da reforma, Calvino demonstrou fidelidade à toda prova à doutrina evangélica. Tanto é verdade que sua obra é gigantesca: São conhecidos mais 2500 sermões, inúmeros comentários bíblicos, além de livros e cartas, todos prezando pela fidelidade à doutrina evangélica.
Isso para nós é um grande desafio. Hoje, vivemos a era da infidelidade doutrinária. Muitos pastores, oficiais da igreja e membros estão vivendo uma infidelidade à doutrina. Conheço pastores que se recusam a batizar crianças e se dizem presbiterianos. Deveriam estar na Igreja Batista. Nossos presbitérios deveriam ser mais rígidos quanto a isso.
Hoje em dia a fidelidade doutrinária está ferida de morte. São tantos “homens de Deus” que entram em nossos lares via televisão e rádio que nossos membros começam a crer em tudo o que ouvem. E assim, assistem aos shows evangélicos da televisão com seus animadores de platéia e quando chegam no domingo em suas igrejas, querem fazer o mesmo e pior: forçam os pastores a fazer o que viram na televisão.
Infelizmente, temos vivido um verdadeiro “self service” doutrinário. Há doutrinas para todo tipo de gosto, no qual, o crente vai montando o seu combo (combinado), o seu pacote, o seu kit doutrinário. Como se tal fosse possível.
Calvino nos dá o exemplo de fidelidade às doutrinas por nós confessadas. Ele teve uma vida de integridade doutrinária. Eis o que devemos imitar em João Calvino: devemos ser fiéis à nossa doutrina reformada e calvinista.

Calvino foi fiel à igreja.
Se temos visto uma infidelidade doutrinária, o que dizer então, da infidelidade eclesiástica? Tenho visto muitos pastores e muitos crentes dizerem que não dão valor à denominação ou numa frase muito comum: “Não estou preocupado com placas de igrejas”. Certa vez, ouvi, pasmemos, da boca de um pastor: “Pra mim, a IPI é uma franquia” - ou seja, ele fazia o que queria em sua igreja local, pregava o que queria, apenas usava o nome Presbiteriana Independente por que este nome carrega uma seriedade, carrega uma história reconhecida pela sociedade e isso é bom.
Sim, irmãos, precisamos valorizar nossa história, precisamos valorizar nossa identidade, precismos valorizar nossa igreja.
Em tempos onde pastores são presos em aeroportos com dólares escondidos (só faltavam estar na cueca), em tempos onde pastor encomenda a morte de outro pastor por questões políticas, em tempos onde igrejas falam mais de dinheiro que na graça de Deus, em tempos onde os conceitos estão invertidos, onde Deus deixou de ser senhor e o servo tornou-se Senhor ao dizer para Deus: “Eu ordeno que tal coisa aconteça! Eu rejeito tal problema! Eu declaro que tal irá acontecer!”, em tempos onde os cultos se transformaram em shows de entretenimento, sim, eu valorizo a placa de minha igreja, pois a IPI do Brasil é uma igreja que em meio a todas estas aberrações doutrinárias, tem sido uma igreja que preza pela profundidade bíblica. E devemos, sim, ter fidelidade eclesiástica. A este respeito, Calvino nos dá exemplo. E se somos uma igreja reformada, o mínimo que se espera de nós é a fidelidade doutrinária e eclesiástica.
Conta-se que o dono de um pequeno sítio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou-o na rua:
- Sr. Bilac, estou precisando vender o meu sítio, que o Senhor bem conhece. Pode redigir o anúncio para o jornal?
Olavo Bilac apanhou o papel e escreveu:
“Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer; com extenso arvoredo, cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda”.
Meses depois, topa o poeta com o homem e pergunta-lhe se havia vendido o sítio.
- “Nem penso mais nisso”, disse o homem. “Quando li o anúncio e percebi a maravilha que tinha, desisti imediatamente de vender aquele paraíso!”

Muitos membros da IPI do Brasil teem agido como aquele amigo do poeta: desconhecem o tesouro que possuem... E neste sentido, todos precisamos demonstrar fidelidade à nossa igreja.

Calvino foi Fiel a Deus
Calvino foi fiel Deus, acima de todas as coisas. Aliás, toda a sua vida e ministério foram uma manifestação de fidelidade a Deus. Quando, ao longo de vários anos escreveu sua obra maior, as Institutas, foi por fidelidade a Deus.
Não se tem notícia de que Calvino em algum momento de sua vida tenha demonstrado infidelidade a seu Senhor. Não se tem notícia de que sua fé tenha fraquejado. Não se tem notícia de que tenha cometido delito que manchasse a honra do evangelho. Não se tem conhecimento de um escândalo sequer, que viesse a ser interpretado como infidelidade da Calvino a Deus.
Muito pelo contrário, se era rígido demais com as práticas que distanciavam o povo de Deus, o foi por fidelidade a seu Senhor.
Até o dia de sua morte, Calvino foi fiel a Deus.


CONCLUSÃO
Diante disso, sejamos pois irmãos e irmãs, fiéis a Deus. Olhemos para a vida Calvino como um exemplo no que diz repeito a fidelidade à doutrina, fidelidade à igreja, e por fim, sejamos fiéis a Deus.
Agindo assim, não estaremos idolatrando Calvino, mas em primeiro lugar, obedecendo a Deus, que nos conclamou em Apocalipse 2.10: “Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida”.
Cultivemos, pois, a fidelidade em nossa vida.
A Ele, pois, toda a glória!!!!
Rev. Roberto Mauro

Um comentário:

Vitor Correia disse...

Realmente, em nossos "tempos modernos", é de extrema relevância que tornemos os nossos olhos para homens e valores a tanto deixados de lado. Precisamos, como Calvino, tornar-mo-nos mais fiéis a Deus do que à nossa paróquia. Como diria o Apóstolo Pedro: Importa obedecer a Deus...

Soli Deo gloria!